17 de fevereiro de 2009

O pierrot e a colombina

A quarta é de cinzas
Mas o batuque do samba não se apaga
E antes de raiar a quinta
Já se ouvem novas batucadas.

Vai o Pierrot e dança, pula, balança
No meio da multidão
Atrás de sua colombina e na esperança
De conquistar-lhe o coração.

O passista faz desenhos no ar com seus movimentos
Voa sem sair do chão e gira com o seu corpo
Desafia as leis do espaço e do tempo
Sorri, mas deixa escapar uma lágrima pelo rosto.

As crianças brincam e seguem o bloco pela rua
O rei mono, agora mais magro, desfila sorridente
Vai sambando ao lado da rainha e de todas as suas
Muitas princesas e pretendentes.

A alegoria passa e vai em direção ao desfile
As baianas rodam para aquecer e comemorar
Mas, sem avisar, o carro quebra e o dia fica mais triste
Até que o samba toca alto e todos se esquecem das lágrimas
[e vão sambar.

Nem tudo é festa,
A menina quer uma fantasia de fada
Mas a mãe não pode lhe dar mais do que lhe resta
E o que tem já não é quase nada

Na rua alguns poucos mascarados
E o pessoal da limpeza varrendo o chão
O cavaquinho e o pandeiro agora silenciados
Não tocam, mas bate forte o coração.

Na quadra a espera pela apuração dos votos
Em casa o saudosismo dos mais velhos a discutirem
Na rua a chuva caindo dispersa e passiva sobre os corpos
Apressados por se esconderem embaixo das marquises.

E em cada canto algum samba entoando
Uma alegria dispersa e perdida
Por entre letras de sambas de outros carnavais
Cantando nossas muitas tristezas e alegrias

A lembrança de tempos que não voltam mais
E a busca de dias diferentes
Onde possamos levar nossos blocos e sambas em paz
E o pierrot e a colombina possam se amar ardentemente.

Na quarta o carnaval acaba
Mas não termina
O samba invade cada madrugada
E não se esvai com as cinzas.

O pierrot, enfim, encontrou a sua colombina
E eles vão de mãos dadas pelo caminho
Ele diz que a ama e a amará por toda sua vida
E ela desconfia desse amor tão repentino
Mas deixa ele pensar que ela acredita...

* Esta poesia foi publicada originalmente em fevereiro de 2008 aqui no Experimentando Versos. Como dizem, relembrar é viver...

6 comentários:

Sonia Schmorantz disse...

Atualíssimo...usou do carnaval para lembrar um velho par de amor e escreveu muito bem.
um abraço e boa semana

(marta selva) disse...

como sempre me fazendo viajar pelas minhas ideias, criando imagens lindas e fantasiosas e outras tao reais e dolorosas.
lindo texto
(como sempre.)
;*

Mr. Zahta disse...

Ótimos versos. Gosto de poemas que falam sobre o carnaval, mas de um ponte de vista mais triste, exatamente na quarta-de-cinzas. Além disso, seu poema lembra tempos em que o carnaval era mais simples... Até a próxima.

Anderson de Oliveira disse...

Um poeta passeando pelo carnaval, captando sentidos e sentimentos, e transformando em letras belas. Parabéns J.R.!

P.S.: Obrigado pelo comentário no poema que dediquei ao meu grande amor, em meu blog. Fiquei lisonjeado..
Abraço grande amigo de profissão!

Bill Stein Husenbar disse...

Um excelente Carnaval repleto de aroma, cor, animação, felicidade e muita festa.

http://desabafos-solitarios.blogspot.com

Rayana disse...

quis escrever alguma coisa nesse... mas acabei fazendo alguns recortes por aí... um deles foi da sua poesia que eu amei[pod deixar q eu coloquei a autoria]
bj.