10 de abril de 2008

O retorno de Clarice (Parte III)

Este texto é a terceira parte do conto “O retorno de Clarice”.
Parte 1 Aqui
Parte 2 Aqui

Éramos como dois estranhos, mas quem se importa? Nunca acreditei em amor à primeira vista, mas ela não precisava saber disso. Não desejava que ela pudesse me entender, ou que degelasse minha solidão crônica com o calor de seu corpo; desejava o seu amor e a possibilidade de traçarmos um caminho juntos. Eu estava cada vez com menos alternativas, ou era tudo ou nada. Um dia, então, tirando do fundo de meu ser uma poderosa, porém, estranha força me pus a escrever uma carta à Clarice. Até aí nada a se estranhar, a não ser o destinatário: rua das flores, número 8. A gaveta que ficasse com a poeira acumulada de meu martírio amoroso.
Ao terminar a carta, coloquei-a dentro de um envelope branco e, veloz, corri até o quintal. Era noite, havia muitas pessoas na rua; elas regressavam do trabalho. Me escondi por trás do tronco do pé de mangueira para não despertar a curiosidade de terceiros. No fundo, eu não sabia o que fazer: se abria o portão e deixava a carta na caixa de correio dos Ferreiras; se esperava as pessoas sumirem da rua para, então, me aproveitando do breu da noite, colocar a carta por baixo da porta. A incógnita em que eu estava imerso era, apenas, um meio termo passageiro e desprezível que, não obstante, antes do sol nascer eu saborearia os louros de minha conquista. Pelo menos, era o que eu pensava.
Segui noite adentro atrás do pé de manga, e nada da rua esvaziar. Era sexta-feira e as pessoas queriam tudo, menos o refugio de suas casas. As calçadas e os bares estavam cheios de gente: umas que aproveitavam o des-compromisso da manhã seguinte para sentir o sereno daquela noite fresca na companhia de amigos; outras que afagavam as mágoas de suas vidas miseráveis e vazias no tragar do álcool; havia aquelas, ainda, que vagavam por entre as ruas como zumbis a fim de se drogar e tentar alcançar um mundo menos feio, chato e bobo. Eram, com certeza, tantas e tão variadas índoles, corpos, cabeças, enfim, pessoas que eu não podia simplesmente ignorar; muito menos, estava disposto a tentar entendê-las.
Do contanto com as pessoas, eu preferia a distância e o retraimento. Se pudesse trabalharia em casa, na companhia sempre agradável de minhas paredes brancas e não botaria os pés na rua. Como não podia me dar a tal prazer, ia para o trabalho como o condenado que sabe que o caminho entre a sua cela e a forca é apenas um arbítrio na vontade soberana do rei, e que, por isso, ele pode ser encurtado ou prolongado indeterminadamente. Pouco ou nada pode aqui o condenado fazer para mudar o seu destino, isto é, a sua sentença; a não ser esperar que a mesma ao se realizar seja rápida suficiente para não sentir dor e obscura em demasia para não haver platéia a assisti-la.
Meus olhos ardiam; sentia o corpo ficar mole com a chamada imperativa do sono e minhas pernas davam o sinal da cãibra por ficarem tantas horas em pé. Eu estava decidido a não dar um passo atrás sem, antes, ver cumprida a minha missão. Mas quando o quadro parecia perdido, eis que surge um moleque de rua. O menino senta próximo ao meu portão. A princípio observou-o cauteloso, pois nunca havia me deparado com a sua figura decrépita e insalubre em minha rua. E me esgueirando por entre os troncos das arvores e a pouca luminosidade de meu quintal cheguei próximo do moleque. Disse sussurrando:
- ei moleque, aqui, vem aqui.
Assustado com o som da minha voz e aflito pela impossibilidade de encontrar o seu emissor, o menino levantou-se da calçada como quem senta numa chapa em chamas; seus olhos esbugalhados procuravam meu corpo nas sombras do quintal mal iluminado sem obter sucesso. Falei-lhe novamente:
-Moleque, aqui, chega mais perto.
E o menino, temeroso, receou ouvir os chamados, isto é, as súplicas de um ser de outro mundo que, porventura, veio diretamente do além para puxar o seu pé; carregar o seu espírito; chupar o seu sangue anêmico. Mas logo, eu faço um sinal com as mãos e mexo nos galhos para ele perceber que a voz que ouviu é de gente e, por isso, não precisa temer – pelo menos, não naquelas circunstâncias.
- garoto não precisa ficar com medo. Eu estou aqui, isso, bem aqui.

Continua...

6 comentários:

José Rodrigues (JR.) disse...

Não gosto de publicar textos grandes, a não ser fragmentando o mesmo em algumas partes para, desse modo, "ajudar" o pobre do leitor ou leitora em sua epópeia literária. Neste caso, a terceira parte do conto de Clarice ficou um tanto grande, mas aí está. Quem quiser se aventurar a le-lo, fique a vontade.

um abraço,

Pati disse...

Olá,José...concordei com teu comentário lá no meu blog e respondi lá mesmo ,aliás postei o teu comentário como um texto,veja lá.Obrigada por aparecer.Vc tem idéias lúcidas e não tem medo de expô-las.É sempre bom trocar idéias com pessoas assim.
Beijos,lindo dia p vc.

Cah! disse...

Belíssimo.
Depois de ler seu texto, me pergunto se o amor,a paixão,ou o que quer que seja, realmente é a fonte de loucuras..ou apenas o ápice delas.
Espero que sua visita ao meu blog seja constante.=D Fico feliz e grata em saber que as pessoas lêem meus textos..^^
Beijos.

Capitu,olhos de ressaca* disse...

Meu filho...
Clarice é fodérrima.
ñ há outra palavra q descreva!
beijão.
hj li um conto dela,q aliás..deve tá batido,mas...sempre vale a pena ler..só a título de reflexão!
''Amor''
beijoks

O Sibarita disse...

Meu camarada! kkk É tá muito o bom essa terceira parte, lerei as demais depois.

No caso o amor e a paixão é isso... loucura e tudo mais dos seus complementos...

Bom conto!

abraços
O Sibarita

Mares disse...

Olá, tudo bem...Prazer o meu saber que vc acompanha o meu blog e aprecia o qeu muitas pessoas desprezam e acham tolices... é uma pena!

Gentileza sua dizer tantas palavras estimulantes!
paarabéns pelo teu blog, vou vê-lo sempre... abç!