11 de janeiro de 2008

O retorno de Clarice (Parte I)

Desde que Clarice retornou, eu não esperava vê-la, assim, tão jovial; na verdade, eu não esperava nem que ela retornasse, menos ainda, que carregasse em seu rosto um sorriso inquebrantável de quem superou as trevas e, agora, nada mais pode ferir-lhe. Quando ouvi a buzina do carro de André, irmão de Clarice, tocar ritmada, eu imaginei que se tratasse de alguma grande surpresa. Corri para janela e vi Clarice, uma mulher de corpo magro, cabelos cumpridos e de riso fácil, que andava sobre a calçada como se bailasse num tablado. Ela era límpida e suave, ao mesmo tempo, exalava uma força de resistência que, às vezes, se confundia com a fúria e com o ódio cego.
A chegada inusitada de André chamou-me a atenção e, mais surpreso fiquei, ao ver quem era, desta vez, a sua carona. Clarice vinha alinhada num vestido azul que, de longe, me pareceu um tanto quanto folgado demais; mas, talvez, ela quisesse disfarçar, ou, pelo menos, dissimular a sua magreza flagrante. E, no seu caso, era até compreensível. Mas ela não vinha só, carregava em suas mãos duas bolsas enormes que, me pareceram, ser demasiadamente pesadas; mas se assim o fossem, ela teria sido ajudada por seu irmão. O conteúdo de tais embrulhos me pareceu, apesar da distância, se tratar de coisas de um peso singelo, como roupas e pequenas lembranças; dessas que as pessoas compram quando em viagem. Seus olhos claros não pude ver devido aos óculos de sol que Clarice usava na ocasião e, por isso, não deixei de maldizer as fábricas de óculos e as lojas que deveriam se negar a compactuar com tamanha covardia: esconder olhos tão belos por trás de lentes escuras?!
Dado alguns passos em direção ao portão de sua casa, logo Clarice foi alvejada por um volumoso corpo que, abraçando-a, parecia devorá-la. Foram tantos abraços, beijos, caricias das mais variadas proferidas por sua mãe, Marta, que a cena me lembrou das relações entre os cães e do modo como estes se comunicam uns com outros por meio de cheiradas, lambidas e, até, latidos. Via naquela mulher gorda e, agora, mais acentuadamente cansada e de cabelos grisalhos, o reflexo de uma família que havia conhecido o inferno, mas que, naquele momento, começava a romper as correntes de seu calabouço sombrio e enxergava no retorno triunfante de um de seus membros a possibilidade de recomeçar. E logo que Clarice se desprendeu dos braços da mãe, assim o fez, para cair direito entre as mãos do seu pai e de sua recepção menos histérica, mas não menos intensa e sincera.
Continua...

6 comentários:

Claudya disse...

Oi amigo, adorei seu blog! Muito bom, sobre o post da Clarice é mais um conto? (me corrigir se estiver errada). Seus textos são lindos! Parabéns. E, como vc. resolve a parte do direito autoral? A net nos propicia + e + achados de blogs e sites de qualidade. Bjs.

Claudya disse...

Ops, erro meu, é conto (vi a categoria depois). Bjs.

José Rodrigues (JR.) disse...

claudya em relação aos direitos autorais eu me defendo da maneira que a lei me permite, ou seja, registro todos os meus textos antes de publicá-los no blog ou em qualquer lugar. claro que isso não impedirá que uma pessoa mal intensionada utilize-se de minhas obrs para outros fins escusos, mas legalmente o registro no escritorio de direitos autorais da biblioteca nacional é uma segurança para futuras dores de cabeça.

mazinha disse...

Olaa Nossa que historia legal hem .. é bom rever sempre alguem neh ... ahh gostei do seu novo layout onde vc pega esses layout pode me dar uma dica???
queria um layout onde ter aver com meu blog mais nao conseguo achar ... =/ ahh se puder colocar o link do meu blog no seu blog ficarei grata .... heheheh adoro seus textos ,...ahh entre la no meu tb ... um otimo fds!

José Rodrigues (JR.) disse...

o texto sobre "clarice" é um conto. dividi a obra em algumas partes e vou publica-las progressivamente para que não se torne cansativo para os leitores. eu sei que o nome do site e a sua destinação é a produção poética, sendo que cheguei a fazer um blog só para publicar meus contos e crônicas, porém, o experimentando versos vem consumindo muito tempo e energia;não para fazer as poesias, pois elas já estão prontas a anos, mas para configurar o blog, achar tempares etc etc
por isso, vou publicar tanto as poesias quanto os meus demais textos aqui no blog.

Juliana Sardinha disse...

Olá José!
Disponha sempre do Dicas Blogger!
Seu blog está muito bonito, com um template bem adequado e belas imagens. Gostei muito. Abraços