1 de janeiro de 2009

Com licença (um ano depois)

Esta poesia chama-se "com licença" e foi publicada aqui no Experimentando Versos em dezembro de 2007. Agora, um ano depois, re-publico a mesma em comemoração ao primeiro aniversário do blog. Esta poesia foi, também, publicada num site de literatura com o nome "roubar para viver". Na época, eu não sabia que nome dar a obrae, na dúvida, coloquei o tal "roubar pra viver". Por causa do titulo, teve gente pensando que eu estava, com a poesia, defendendo o direito dos bandidos em roubar e, por outro lado, sustentando o não direito dos bons moços em serem passados para trás e ficarem, assim, calados. Esta poesia deve ter sido parida há cerca de quatro ou cinco anos atrás, não lembro a data agora, e a sensação que ela me causa hoje, relendo-a, é de uma espécie de estranheza, pois um dos personagens principais da historia é um sujeito aparentemente simpático, um tanto educado que demonstra, para espanto geral da nação, sincera preocupação em relação ao aumento da criminalidade e à segurança daquele a quem o mesmo assalta. Ora, cotidianamente inúmeros veiculos de comunicação, especialistas etc fabricam, com seus discursos, textos e reportagens, uma certa imagem do que é ser criminoso, por exemplo, na cidade do Rio de Janeiro. Tal imagem é composta por uma série de componentes racistas e discriminatórios: o bandido é "naturalmente" pobre e negro. Antes que alguém se sinta ofendido, não estou dizendo que não haja na face da Terra criminosos negros e/ou pobres, mas que é preciso que esta imagem que é produzida diariamente seja, também, questionada para que ser negro ou pobre não se torne condição de possibilidade (ou, meio caminho andando) para ser marginal. Tavez haja mais criminosos num condominio de luxo na Zona Sul do Rio do que no Morro Mangueira. O que eu quero dizer, é que esta poesia vai na contra-mão da imagem que, corriqueiramente, temos do que é ser bandido: violento, ignorante, sanguinario, perverso etc. É importante que tudo aquilo que há de fixo e cristalizado em nossas maneiras de pensar, sentir, enfim, de viver sejam questionadas para que, assim, possamos não apenas reafirmar destinos, mas, sobretudo, que nos tornemos capazes de reinventar esta sociedade na qual vivemos e da qual fazemos parte.

Senhor, com licença, a sua carteira caiu no chão
Todo mundo se descuida, não precisa ficar envergonhado
Agora que já pegou, por favor o dinheiro na minha mão
Isso mesmo, sem grito e de bico calado
Eu estou te roubando, isso é um assalto.

Minha família precisa comer
E eu tinha de dar um jeito
Não precisa ficar com medo, o senhor não vai morrer
Esse é o meu ofício: roubar para viver.

Eu não gostaria de estar aqui
Mas não tenho oportunidades
Trabalho é difícil de conseguir
Sinto - me envergonhado, queria mudar de verdade.

Mas é difícil, quem nasce assim
Pobre e sem condição
Corre o risco de levar um tiro e ser o fim
Ou ainda pior ir para prisão.

Deus - que - me - livre
Eu não quero isso para mim
Da minha turma sou um dos poucos que ainda vive.

Mas senhor vamos logo, antes que eu me arrepende
Tire esse dinheiro e passe para cá
Sabe: eu tenho um filho e ele está doente
Preciso comprar remédio, e seu dinheiro vai me ajudar.

Agora o relógio, este que está em seu braço direito
Sem truques senhor, eu estou te olhando
Um assalto tem de ser bem feito
Com todo cuidado e planos detalhados.

O ladrão não pode ter medo
Tem que saber escolher a vítima
Ser rápido e pegar logo o dinheiro
Sem falar, sem marcas, e nada de pista.

Agora senhor, pode ir embora
Ainda bem que cooperou, com licença
Eu tenho de ir, já está na minha hora.
Vai em paz, e cuidado com a violência
Nessa hora a rua tem muitos marginais
Se for de carro, dirija com prudência
Boa noite, eu vou pegar o meu ônibus.

3 comentários:

Lizzie disse...

Doloroso, mas genial por trazer a mensagem que deve: conscientização do que ocorre.

Belíssimo versejar.

Beijos. Feliz 2009 e parabéns pelo 1 ano de blog!
www.lizziepohlmann.com

José Rodrigues (JR.) disse...

Lizzie, obrigado por sua visita ao Experimentando Versos e pelo comentário.

Eu, particularmente, não gosto da palavra conscientizar. Prefiro dizer que as poesias, assim como outras formas de expressão artisticas, podem "provocar" as pessoas a pensarem de maneira diferente questões já naturalizadas em seu cotidiano. Mas é claro que cada leitor ou leitora do blog é afetado pelas poesias de modo diferente e, de acordo com seus gostos, pensamentos e experiencias de vida, reajem as mesmas de maneira singular. Então, a esperança é que as poesias provoquem e façam refletir.

ángel disse...

Bello poema en la tersa lengua de Drummond.

Un gusto encontrar tu espacio.


Saludos...