10 de maio de 2008

Cotidiano

Durante muito tempo guardei esta poesia, feita há alguns anos, na gaveta. Depois que a escrevi e reli, achei-a interessante, mas passado algum tempo, quando voltei a lê-la, o que me parecia uma boa experimentação de versos, soou estranho. Pois, “cotidiano” me causava a sensação de que eu tinha tentado escrever muito mais um artigo acadêmico do que uma poesia. Ou seja, tive a sensação de que ela não merecia emergir da superfície de minha gaveta, e, durante um longo inverno, lá foi o seu lugar. Hoje, porém, resolvi torná-la publica. Seus versos desenham o rascunho de uma paisagem, com as suas linhas tortuosas; seus personagens obscuros acompanhados de seus sentimentos de angustia e dor mal suportados. O que eu me pergunto é: se estes versos são uma invenção ou representariam, mesmo que limitadamente, um espelho daquilo que, hoje, a nossa sociedade se tornou. Não sei.

Lágrimas que se transformam em passeatas ou versos
Lindas palavras que se completam
Rosas enterradas na areia, faixas de “basta”! (chega!).
Que deixam suspensos no ar
Uma dor, um pedido, um protesto
Que pouco importa vir a se desvendar.

Uma raiva nua, que, no entanto,
É apenas mais uma entre tantos
Gritos roucos, atos incertos e planos perdidos
De um rancor (e de um medo) cotidianamente adquirido.

A sinceridade alarmante de momentos não vividos
De gestos que se fazem por sumir
Entre um medo renitente e os estampidos de tiros
Uma realidade que se rejeita, mas que se faz por engolir.

Uma angústia que se alastra
E percorre as ruas, as esquinas.
Que está em todos os cantos, nas casas;
Na impotência flagrante de uma luta achada perdida:

Nos silêncios dos vencidos
Nos prazeres monótonos
Nos amores esquecidos
Nas chacinas dos banidos

Que se quer observar por trás de potentes binóculos
Mas os nossos atos, descondensados e inócuos
Não fazem muita diferença nesta trama (ou seria drama?)
Tão estranha e ao mesmo tempo tão familiar

Que nos apavora e nos impele a nos esconder e a gritar
Mas não há quem nos venha ajudar.
Quem possa nos ouvir e nos entender.

Lágrimas que escorrem pelas caras
Pelos muitos e duros caminhos e vielas
E o que se extinguem são os sonhos
Que aparecem, agora, como utopias de uma outra época.
Sem vida, sem esperança

As lágrimas vêm ao chamado
Ingrato e tortuoso das lembranças
Velhos desejos deixados de lado

Luta. Reação. Resistência!
Palavras outrora familiares que no crepúsculo de nossos dias
Soam tão estranhas e sem pertinência
Melhor agora são: Adequação e Flexibilidade.
E outras tantas mais
Num vocábulo pós–moderno de superficialidades.

Acreditamos fielmente na verossimilhança
De uma realidade de fachada
E agora o aperto no peito e as lágrimas nos lembram
Que um dia fomos além
Dessa hipocrisia tão displicentemente acalentada.

E se agora colhemos os frutos, amém:
A violência, a barbárie, a solidão
Que nos seqüestram e nos fazem refém
De nossa própria e falida invenção.

Fizemos questão de esquecer ardentemente
O que víamos, ouvíamos e sentíamos.
Na pressa de seguir os padrões
Passamos apenas a reproduzir, a repetir
Conforme os manuais importados
Tão alardeados por aqui.
E, agora, já ultrapassados. Démodé.

Mas parece que não importa tanto o correr escuso dos dias
Pois, apesar das inseguranças e angustias, continuamos a fingir.
A levar a vida adequada aos modismos e com as velhas sangrias
Uma piada que de tanto repetida, perdeu completamente à vontade de rir.

Ora, as lágrimas se evaporam
E como a frágil chuva que cai
Elas secam e, um dia, de repente, voltam.
E a gente se lembra de xingar e de pedir.

E de querer explodir tudo - principalmente os pobres, é claro
Para que a violência não atrapalhe o fim de tarde na praia
Para que tudo permaneça fixo, exato:
Os lugares sociais petrificados como sempre foram.
Os dias ensolarados de inverno.
Os figurantes sem se tornarem atores principais
Em suas próprias histórias negadas
Num cenário cada vez mais retocado e de traços incertos
Que, deverás, não passa de uma piada.
Só que em vez risos, tiros
E no lugar da salva de palmas
Um silêncio constrangedor.

Além das lágrimas incertas a umedecerem as faces
Um medo crônico e paralisador
A se expressar nos gestos, nos pensamentos, nos olhares
Resquícios de um mundo cada vez mais senil e incolor
Em que os lugares, a priori determinados,
São espaços cada vez mais fechados e sombrios
Onde, apesar do calor, se passa frio
E apesar da multidão, a sensação é de se estar sozinho.

7 comentários:

Anônimo disse...

Oi amigo poeta! Quanto tempo não te vejo!
Mas passei aqui para te falar, que seu blog está entre os Blogs Top do meu blog...rs
depois passa lá!
=)

Bjos.
Nana-chan

Nana Soraggi disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Nana Soraggi disse...

Olá amigo poeta! Há qnto tempo não te vejo online.
Mas passei aqui para te dizer que o seu blog está na lista de Blogs Top, lá no meu blog ( www.garotaativa.blogspot.com )

passa lá depois! =)
Bjos,
Nana-chan

Sonia Regly disse...

Você escreve muito bem, por isso passo sempre por aqui.Venho ver as novidades. Vim te convidar para retornar ao Compartilhando as Letras.Coloquei uma linda postagem sobre o Rio.

Me disse...

olá! eu entendo esta poesia e entendo o que te levou a por aqui. mas como te disse a tua vida está a seguir em frente. Este foi um momento menos bom...
Vai passar e o que ficará são as memorias trsites desse momento.
Conta comigo para o que precisares.

bjs*
ME

Marina disse...

Ola Jr.

Gostei muito do seu blog e tomei a liberdade de colocá-lo entre os links do meu.

Depois da uma olhadinha!

Marina

Pripa Pontes disse...

Achei brilhante! E totalmente condizente com a sociedade em que vivemos...nessa confusão de sentimentos, emoções, frustrações e medos.
Nessa insegurança que so persegue e nos tolhe, nessas palavras sem força que exprimem as faixas que levantamos, quando dentro de nós, muitos, desejam acabar a violência com a violência. A exclusão, com a exclusão.

Foi ótimo a relutância em publicar o texto ter vncido a vontade de enterrá-lo na gaveta!

Bjos.



P.S: postei a parte I do final do meu conto, se quiser passar lá para conferir, sinta-se à vontade.Seus comentários e reflexões são sempre bem vindos no blog amador.